Escrivaninha 32

Penso, logo escrevo

Intermitência

Publicado por JC sob em 20:57

As moscas piraram.
Miraram o ócio e se atiraram,
pensaram, talvez, que nada mais aconteceria,
os corpos também.

Os corpos pareciam adormecidos
talvez para sempre, ninguém sabia,
nem mesmo a platéia que
assistia ao princípio, ao meio e às moscas piradas.

Nos corpos estirados sem cor e movimento
havia dor, rancor e orgulho, já as moscas
e os demais desinformados
pouco sabiam o que sucedia.

Era uma história muito bonita, diziam,
embebida de romance, drama, suspense – porque terror ela não assistia – aventura e comédia.
Sim comédia! Pois apesar dos semblantes pálidos
um dia, quem diria, houve cor e muito riso.

Ele escrevia, ela lia e os dois se amavam
como se fossem os corpos mais importantes
não só do mundo, como dos contos também.

Escrevia, porque sem tempo ele parou de escrever.
Lia, porque sem os escritos ela parou de ler.
Amavam-se, porque sem história não se amaram mais,
ao menos não como antes, o que os levou a sucumbir.

As moscas, coitadas, se enganaram.

A atenta platéia viu os corpos se mexerem.
Olhos vidrados, bocas abertas, mãos transpirando.

Ele segurou a mão da moça, ajudando-a a levantar,
sussurrou algo em seu ouvido,
baixo o bastante para nenhuma mosca ouvir,
e a fez voltar a brilhar.

Não teve beijo, nem mesmo abraço
Mas os corpos, antes inertes, começaram a caminhar.

Ele voltou a escrever...






... mas ela não quis voltar a ler.

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