Escrivaninha 32

Penso, logo escrevo

Metamorfose

Publicado por JC sob , em 21:24

Ela resolveu passear, dar uma volta. Não sabia aonde ia nem quando iria voltar, só queria ir para algum lugar. Conhecer um pouco do mundo, um pouco do amor, um pouco da dor, um pouco de tudo. Juntou suas coisas, colocou tudo o que tinha aprendido numa mochila, listou em um pedaço de papel o que queria vivenciar e lá se foi sem olhar para trás. Ela queria um pouco de respostas e uma pitada de histórias para contar quando então retornasse.

Ela se foi. Chegando lá, encontrou velhas lembranças do tempo que ainda era criança e achava que sabia amar. Talvez soubesse, mas não do jeito que estava prestes a aprender. Ela riu, chorou, sentiu, aprendeu, errou, experimentou, quase pirou, floresceu, desamou, amou. Ela cresceu. Viveu em dias o que não viveu em anos. Era um lugar diferente, eram pessoas diferentes, histórias diferentes. Cada dia era uma nova enxurrada de sentimentos e sensações. Ela fez jus à ocasião, viveu tão intensamente quanto poderia suportar. Como conseqüência, os paradigmas que trouxera na mochila não tinham mais a influência de antes, se é que influência tinham. A festa acabou, todos foram embora e a deixaram a mercê da nostalgia. A saudade então bateu à porta e ela decidiu retornar.

Ela voltou. Fez o mesmo caminho de quando partiu. Estava um pouco diferente, é verdade, mas ela conseguiu não se perder e ao seu destino chegar. As pessoas também estavam diferentes, tal como as ruas, e as árvores e as casas. Até o cheiro de terra molhada não tinha mais a mesma fragrância. Os cômodos de sua casa estavam todos embaralhados. Alguns rostos ela não conseguia reconhecer, enquanto de outros vagamente se lembrava. Os lugares que antes costumava frequentar não tinham a atmosfera de outrora. Eram todos estranhos, salvo pequenas exceções.

Ela desesperadamente abriu sua mochila na esperança de encontrar lembranças anteriores a sua partida, alguma antiga verdade que explicasse o porquê de tanta mudança. Ao abri-la tudo o que achou foi um antigo estojo de maquiagem. Maquiagem não mais havia, apenas um pequeno espelho que compunha o já gasto item. Ela o pegou e, frustrada por tão pouco ter encontrado, o aproximou lentamente de seu rosto de forma a enxergar o fundo de seus límpidos olhos azuis. Em seguida veio a compreensão de que tudo estava perfeitamente igual ao dia de sua partida. As ruas eram as mesmas, os lugares eram os mesmos, os rostos eram os mesmos; ela é que havia mudado, mais por dentro do que por fora. Não trouxera apenas respostas e histórias para contar, mas uma nova percepção que refletia nos seus olhos a razão de tanta mudança.

 

Contador de posts e comentários

Este blog contém posts e comentários. Obrigado pela visita!

Seguidores