Escrivaninha 32

Penso, logo escrevo

Sonha-te

Publicado por JC sob em 23:23

Está tarde. A temperatura diminui à medida que a lua desponta por detrás das nuvens. Passe a mão no rosto para ativar a circulação. Calce as sandálias para caminhar até o banheiro. Não está tão frio, mas sua mãe não iria gostar de te ver com os pés no chão a essa hora da noite se aqui estivesse. Aproveite a liberdade com moderação.

Agora que já escovou os dentes pode deitar-se sem pressa. Horizontalize-se de vagar. Não se afobe para fechar os olhos, deixe que o cansaço se encarregue destes pormenores. Dizem que sonhamos com a última coisa que pensamos antes de dormir. Lembre-se então das risadas, dos olhares e do perfume. Do som da minha e da sua respiração. Lembre-se das palavras, ditas e ouvidas. Da música, da vodka e das cores. Lembre-se do mar, das mãos e do até logo.

Quando começar a sonhar não acorde, ainda que os olhos se abram e o sol invada o seu quarto; que o tempo passe e os sentimentos se atenuem. Não desperte. Não sem antes também me acordar.

Palavras

Publicado por JC sob em 23:40

Dissera-me que palavras apenas não bastam, e não bastam. Um dia elas falharam. Talvez por força dos ventos que as levaram para debaixo do oceano, trancafiando-as numa garrafa de vidro tão espessa quando a distância entre o mar e as montanhas; ou por insistência do tempo, que as apagaram sem deixar vestígios. Ou quem sabe dos dois.

Era preciso algo mais. A brisa ventou, o tempo passou e palavras não foram suficientes. Eram lindas, não nego. Pintadas com o mais delicado dos pincéis. Ditas no tom certo, nos momentos certos. Ainda assim continuavam sendo essencialmente palavras, apenas isso, palavras.

Prometera-me mudanças, escolhas e atitudes. Prometera-me o andar de mãos dadas, prometera-me uma velhice a dois. Não posso acreditar sem correr o risco de muito me entregar e, de súbito, tudo acabar como antes, em palavras.

Não me eximo da responsabilidade. Eu mergulhei, quebrei a garrafa, voltei no tempo e mais uma vez pronunciei as palavras, fazendo-te sonhar, suspirar, radiar. Assim sendo, culpe-me quando desejar. Cobre-me quando quiser.

Tempo que não tivemos

Publicado por JC sob em 18:08

Quanto tempo?
Quanto tempo dura muito tempo?
talvez não dure, simplesmente passe
passe o tempo e não dure muito
não durou muito naquele tempo,
não tempo bastante para durar,
para sonhar, cantar e falar:
Durou tempo, muito tempo!
Não durou, não muito tempo,
o tempo correndo passou sem durar.

Tempo não passa pedindo licença,
sequer se despede quando tem que partir
o tempo corrói, destrói e recria,
enferruja o anel e rasga o vestido,
amassa o véu e eterniza o pedido,
enegrece o céu, esconde o sentido.

Tempo que não tivemos agora temos,
podemos outra vez fazer mais do mesmo
ou tentar construir uma nova história.
Talvez não dure por muito tempo,
mas tempo temos para fazer durar,
durar todo o tempo que agora temos
até o meu tempo o tempo levar.

Caduquice

Publicado por JC sob em 11:48

Se o tempo voltasse
e as pedras falassem.
Se a saudade acabasse
e os olhos beijassem.

Eu estaria louco,
irremediavelmente caduco.

O tempo não volta,
as pedras não falam,
a saudade não acaba
e olhos não beijam.

É, eu estaria louco,
irremediavelmente feliz.



Verbo

Publicado por JC sob em 18:52

Reencontramo-nos.

...

Saímos,
conversamos,
rimos,
brincamos,
nos divertimos,
não dançamos;
bebemos
e cantamos,
nos tocamos,
desejamos.

Ela provoca.
Eu resisto.
Ela insiste.
Eu explico:
— Não posso.
Não podia, ainda.

Eu provoco.
Ela quer.
Eu a quero,
mas sussurro:
— Não posso.
Não podia, mas queria.

 ...

Desencontramo-nos.


Futuro do pretérito

Publicado por JC sob em 13:18

Às vezes o passado volta com uma intensidade tão ofuscante que nos derruba, nos faz perder a consciência, os sentidos. Os sentimentos se fundem dando origem a sensações inimagináveis. Algumas verdades se sustentam enquanto outras caem por terra, fazendo-nos repensar todos os nossos princípios, valores e atitudes. A distância entre o certo e o errado se estreita de forma que sequer ponderamos nossas ações, apenas agimos. Então o passado subitamente se despede sem deixar vestígios, apenas saudades. Se será apenas um até logo ou uma despedida definitiva, deixemos a cargo das reticências.

Ao mesmo tempo em que sinto ter errado por deixar o passado tomar conta do presente, lembro-me de nunca ter dito adeus. 




"[...] E nossa história não estará pelo avesso
Assim, sem final feliz.
Teremos coisas bonitas pra contar.
E até lá, vamos viver
Temos muito ainda por fazer
Não olhe pra trás
Apenas começamos.
O mundo começa agora
Apenas começamos."

(Metal Contras as Nuvens - Legião Urbana)

Escolher ou ser escolhido?

Publicado por JC sob em 11:14
 
É simples assim. Segundos após segundos, horas após horas, dias após dias, vidas após vidas. A diferença é que para alguns esse ciclo torna-se vicioso, monótono, fúnebre, tão pálido que as cores parecem nunca brotar... e não brotam. Cores são percepções visuais, noutras palavras, elas já estão lá, sempre estiveram, só que nem todos as percebem, ao menos não do mesmo jeito ou com a mesma intensidade. Por isso o sol, apenas para exemplificar, parece brilhar mais para uns do que para outros, quando na verdade ele é o mesmo para todos, as pessoas é que teimam em tentar apagá-lo. Alguns são tão persistentes que conseguem. Para estes, o mundo frio e monocromático parece tão pequeno que se torna impossível se esconder, ao mesmo tempo em que é grande o suficiente para criar labirintos de dificuldades. Então, como se o surgimento de soluções fosse condicionado unicamente ao tempo, espera-se encontrar um guia, uma espécie de super-herói que conheça os atalhos para a solução dos até então insolúveis problemas. Infelizmente, ou felizmente para os mais radicais, os finais felizes não são mais inevitáveis. Nem mesmo nos filmes, outrora tão criticados pela previsibilidade de seu fim.

Também não pense que protagonizar finais felizes é questão de sorte, viver não é tão aleatório quanto jogar dados. As conseqüências são fruto de nossas escolhas, não da conspiração dos astros, da posse de um trevo de quatro folhas ou do passar por de baixo de uma escada. Mesmo não fazer escolhas e permitir-se levar por escolhas alheias não deixa de ser uma. Não há como fugir da responsabilidade e pôr culpa no destino. É bem verdade que riscos existem, mas existem justamente para abrilhantar a magnitude das escolhas. Quer manifestação mais intensa de poder do que o poder de fazer escolhas? Quanto maior a conseqüência, maior o poder. Você pode questionar que a tristeza, por exemplo, raramente é escolhida como sentimento presente e não por isso é evitada. Afinal de contas estar triste é sinônimo de sofrimento e são poucos os que gostam de sofrer.  No entanto, lembro-te, a tristeza, bem como a maioria dos sentimentos, é conseqüência de escolhas outrora feitas, é um resultado, não só a tristeza como também o ciclo vicioso ao qual me referi no início desta prosa.

Talvez o maior passo da humanidade não tenha sido a roda, o fogo, a energia elétrica ou qualquer tipo de invento, mas a ciência de que o homem é capaz de escolher seu próprio destino, de fazer sua própria história, de perceber todas as cores, de acender o sol para tomar café da manhã, de ser feliz mesmo que o mundo em coro diga não, enfim, de fazer escolhas e não simplesmente ser escolhido. No final das contas a vida nem é tão curta assim, nós é que demoramos tempo demais para aprender a viver.

Manual do Poeta

Publicado por JC sob em 08:22

Poema não tem que rimar coisa nenhuma.
Se rimar é bom, fica aquela coisa cadenciada, melodiosa,
mas as rimas limitam o engenho dos menos engenhosos.
Então, se não rimar não há problema.
Escreva do seu jeito.

Versos nem muito pequenos, nem muito grandes,
coloque umas palavras difíceis,
não muitas, guarde algumas para os que ainda escreverá.
Sim, pois um poeta não pode ter apenas um ou outro poema.
Dá a impressão de ser mera dor de cotovelo ou apaixonite aguda.

O tema é um simples detalhe.
Comece falando de amor
e termine falando de pipoca, não importa.
Porém, nunca se esqueça disso meu caro (ou minha cara),
poema que se preze não pode fazer sentido,
ou melhor, não pode ter apenas um sentido,
ou se tiver, tem que ser o mais tácito possível.
Poema tem que ser difícil de entender
e ao mesmo tempo arrancar suspiros e exclamações do tipo:
"Puts, por que não pensei nisso antes!"

Agora coloque um título,
mas não um título qualquer,
afinal de contas é um poema.
Abuse das antíteses e pleonasmos.
"Loucura insana";
"Alegria melancólica";
"Sol da meia-noite";
"Fogo ardente";
“Paraíso infernal”;
e pronto, eis em mãos o seu poema.

E nem precisa revisar muito,
Trovadores não cometem erros gramaticais,
apenas exploram a liberdade poética.

Só vai ficar faltando a poesia,
mas isso se adquire com o tempo...

...eu acho.

 

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