Escrivaninha 32

Penso, logo escrevo

Nostalgia

Publicado por JC sob em 14:55

Ainda lembro-me do tempo
em que as noites eram longas e serenas,
em que os dias se arrastavam sem pressa
e a vida era um domingo de muito sol e muito pique.

Lembro-me dos rostos,
das mentiras que viravam lendas,
das conversas que nunca chegavam ao fim
e do desejo de ter tudo o que já possuía.

Lembro-me do medo de atravessar a rua
e dos olhares infantis com vergonha de amar.

Era tudo tão diferente.
Castelos existiam
e dragões também.

Era tudo tão diferente.
Sabia que eram moinhos,
mas preferia me enganar.

Ciclo Vicioso

Publicado por JC sob em 10:08

Ela só queria suspirar,
escrever poemas que ninguém mais entendesse,
fazer de cada canção a trilha sonora de seus sentimentos,
ter bons motivos para sorrir e para chorar,
ser protagonista de seus próprios sonhos e devaneios.

Ela tentou várias vezes,
porém sem sucesso,
até descobrir que deveria primeiro se apaixonar
e depois sofrer,
e depois amar,
e depois sofrer,
e depois perdoar
e depois mais sofrer...

Frustrada, concluiu não valer a pena
e decidiu então se matar.

A Pílula

Publicado por JC sob em 13:22

Vou fazer você ter calafrios e suar ao mesmo tempo;
Pedir pra parar mesmo querendo mais;
Falar palavrões que nem sabia existir;
Gemer, gritar, tremer, suspirar...

Mas antes,
deixe-me encontrar
minha mágica pílula azul.

Derradeira

Publicado por JC sob em 16:31

Ela era tão romântica. Do tipo que desenha coraçõezinhos no caderno e escreve cartas de amor mesmo não tendo amor algum. Afinal, nunca se sabe quando se terá um. Por via das dúvidas já as deixavam prontas. Tinha um diário com o qual se confessava todos os dias. Vez ou outra se esquecia de narrar suas aventuras e desventuras juvenis, mas era a exceção.

Sexo só depois do casamento. Ficaria imaculada até a noite de núpcias. Ademais, não gostava da ideia de se integrar ao primeiro namorico. Queria que fosse com alguém especial. Com alguém com que fosse passar o resto de sua vida e não havia ninguém que a fizesse mudar de opinião.

Filhos? Uns quatro. Dois meninos e duas meninas. Adorava crianças, assim como o ambiente doméstico e todas as atividades dignas de uma dona de casa. Passar, cozinhar, lavar, arrumar. Fazia de tudo, mesmo tendo apenas quinze anos.

Infelizmente morrera no século passado. Antes do advento da camisinha de látex, das telenovelas e da popularização das máquinas de lavar. Desde então, nunca mais se vira outra igual.

Casamento

Publicado por JC sob em 08:56

— Amor?

— Sim?

— Vamos casar?

—M-mas...

— Olha, eu já pensei em tudo. No Buffet, na igreja, na decoração, na data... Hoje mesmo a costureira vem aqui em casa pegar minhas medidas para a confecção do vestido. Sabe o Julhinho? Então, ele poderia ser o nosso padrinho.

— Você não ach...

—Aqui. Essa aqui é a lista de convidados. Acho que não está faltando ninguém.

— Não estamos indo rápido demais?

— Rápido demais? Namoramos durante três meses, já faz duas semanas que estamos noivos e você ainda me diz que estou sendo precipitada?

— É que aconteceu tudo muito de repente e...

— Bem que a Margareth disse, você só queria transar comigo. Vocês homens são todos uns insensíveis. Como eu fui burra... Burra...!

— Mas amor...

— Não me chame de amor. Pra me levar para a cama você já me conhece o suficiente, mas pra casar não, ainda sou uma desconhecida... Acabou!

— Não é isso... O que você está fazendo?

— O que você acha que estou fazendo? Vou voltar para a casa dos meus pais. Você não merece o meu amor. Como eu fui idiota...

— Tudo bem, eu caso.

— Eu sabia que você aceitaria. Eu te amo. Nunca duvide disso.

— Eu também te amo. Espera! Que nome é esse tatuado nas suas costas?! Lucas?! Quem é Lucas?!

— Tinha me esquecido de te contar. Vai ser o nome do nosso filho. Gostou?

— Filho? Você está grávida?

— Ainda não, mas já pensei em tudo.

Percevejo

Publicado por JC sob em 00:06

Surpreenda-me percevejo
e ganhe de mim um beijo.
Quiçá tu não vires um queijo;
uma bela adormecida com insônia;
uma Chapeuzinho Vermelho sem avó;
uma Cinderela sem príncipe e sem pés;
uma Rapunzel sem torre e careca
ou não vires nada e continues um percevejo.

Por vezes me pergunto sem jeito
por que te chamo de percevejo.
Deve ser porque rima com queixo,
joelho, cabelo e desejo.

Sem mais eufemismos e rodeios...

Deixe-me beijar os seus seios,
incendiar cada um de seus pêlos,
sufocar-te no âmago de meu leito
e gritar baixinho sem receio:
Per-ce-ve-jo...


Pode até não fazer sentido,
mas que sentido há em cobiçar
um bucólico e amargo percevejo?

 

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