Escrivaninha 32

Penso, logo escrevo

Final feliz

Publicado por JC sob em 11:38

Estou indo embora.
Talvez um dia eu volte,
mas não chame pelo meu nome.
Não quero olhar para trás.
Quero apenas em casa chegar
e então dormir em paz.

Quem sabe quando eu acordar
tudo terá sido esquecido,
o mar estará mais tranqüilo
e eu volte outra vez a amar.

Enquanto isso
vou caminhando em direção ao horizonte,
como se um dia fosse chegar
num lugar bonito, cheio de coisas pra contar,
mas estou ficando cansado,
cansado de tanto andar
e me ver sempre no mesmo lugar.

Por que os finais felizes
são sempre tão tristes?


Carpe Diem

Publicado por JC sob em 17:39

Não tente compreender
o místico sentido da vida.
O sentido quem dá somos nós
então apenas olhe-a e viva.

Carpe diem
quam minimum

credula postero.


Não faça de sua vida
um fruto proibido
que nunca será provado,
que nunca será colhido.

Colha-o antes da tempestade
que pode chegar amanhã
ou depois, não se sabe.

Beba mais um gole
antes que a vida evapore
sem ao menos ter sentido
o doce gosto que ela tem.

“Gather your rosebuds while you may”

Não espere o inverno chegar
para só então ver o outono passar.

Venha, vamos sair.
Sair para ver o mundo
e cantar o dia inteiro
como se este fosse o último.

Beba o último gole
do doce vinho da vida
o som do pôr do sol
antes da última despedida.

Vamos colher nossos botões de rosas
enquanto o vento não os leva embora.

Bel-prazeres

Publicado por JC sob em 18:22



Sempre quis dizer para uma mulher ser só dela
e ouvi-la dizer ser só minha
em todos os sentidos,
em todas as posições,
sob todos os lençóis,
vestidos ou nus,
suados ou molhados,
gemendo ou suspirando.

Alguém que não fosse só sexo.
Nem só amor.
Mas um terceiro elemento,
um movimento singular.
Alguém que me fizesse gozar
de todos os gozos da vida.

Alguém que não quisesse só domar,
mas aceitasse ser domada.
Não tivesse medo de se entregar,
mas que não fosse fácil de mais.
Alguém que me fizesses transpirar
mesmo no frio do inverno intenso

Enquanto esse utópico alguém
apenas em meus sonhos permeia,
só me resta dormir
e entregar-me a calorosas abstrações.


Monotonia mórbida

Publicado por JC sob em 11:21



As coisas andam tão confusas.
As noites cada vez mais frias,
os dias cada vez mais longos.
A esperança já não mais tão verde
Como era em outros outonos.

As brisas sopram do lado errado,
o azul do céu está desbotado.
O sol outra vez se escondeu
e a lua nunca mais apareceu.

Metáforas não fazem mais sentido.
As rimas andam sem compasso
Os versos não saem com ternura
e os pássaros se calam onde passo.

Às vezes o mundo para de girar,
noutras gira rápido demais.
As nuvens estão tão cinzas,
mas nunca choram.

Nada acontece
e os dias vão passando.
E nada acontece
E o ontem que não volta.

E nada acontece
e a vida vai passando.
E nada acontece
E o tempo que não volta.

E nada acontece
mas tudo vai passando...

...até não haver mais nada para passar.

Pássaros

Publicado por JC sob em 22:58

E as pétalas vão voando
sem rumo e sem destino,
até que a brisa cesse
e enfim pereçam em paz.

Os pássaros cantam
como se a vida fosse uma só,
incessantemente,
eloquentemente.

As flores hesitam em desabrochar.
Parecem já saber o seu destino,
que ninguém as notarão,
e então decidem murchar.

E os pássaros cantam
como se quisessem mudar o mundo,
em meio às secas folhas
que já encontraram seu fim.

A chuva vai caindo sem querer
ritmada pela orquestra dos ventos
enquanto o céu de mármore
limita os olhares atentos.

As horas passam por passar,
a noite chega por chegar,
as estrelas mais uma vez se omitem,
mas os pássaros cantam
como se o dia acabasse de nascer.

A madrugada faz-se presente.
O álgido ar cala todos os ruídos
exceto o dos pássaros,
que cantam como à espera do sol.

E os pássaros cantam
como se no final tudo fosse acabar bem
e os sonhos deixassem de ser sonhados
e pudessem ser por fim tocados.

Quisera eu ser um pássaro
para poder chorar cantando
enquanto todos apreciam
o meu belo e triste canto.


Flores de plástico

Publicado por JC sob em 13:39


Flores de plástico não morrem
Flores de plástico não mentem
Flores de plástico não ferem
Flores de plástico não sentem

Flores de plástico apenas existem
Como um eterno sorriso de marfim
Entalhado numa estátua sem alma
Preenchendo o vazio que jaz
Das flores ceifadas pelo vento
As quais já encontraram seu fim


Fragmentos

Publicado por JC sob em 16:27

I

Às vezes tenho a impressão
Que só meu cão me entende
Mesmo com seu silêncio eloqüente
Me diz mais que muita gente
Com seus verbos escarrados
E dialética prepotente

II

Viver é aceitar o inevitável
E não evitar o evitável
É fazer o caminho errado
E ver as coisas como elas não são
Verdades simples há e não
Só depende da profusão

III

Meus olhos de vidro
Não vêem mais a diferença
Entre o certo e o errado
Entre o admirável e o banal
Talvez esteja quebrado
Ou talvez diferença não haja

IV

Não escrevo para arrancar suspiros
Sim, faço poemas sem sentido
Às vezes morro, às vezes vivo
É tudo uma questão de libido

V

Não quero mudar o mundo
Nem parecer um velho taciturno
Esperando que o sol nasça outra vez
Reclamando de todos e de tudo

Mas sinto o céu tão triste e pálido
Talvez seja só o meu humor

VI

Primeiro a gente ama
Depois escreve
Depois contempla
Depois amassa
E depois joga fora

Quando o lixo já não é mais lixo
E já foi então reciclado
Ficamos desesperados
Procurando inutilmente
Aquele papel amassado

VII

Pulei alto demais
E do penhasco errado

Está tudo acabado

Depois de tanto tempo
Depois de tanta prosa

VIII

Entendam como quiser
Embora seja mais fácil
Bem mais fácil não entender

Eloqüente: facundo, diserto, expressivo, convincente;
Dialética: lógica
Profusão: abundância, exuberância;
Libido: energia psíquica originada por necessidades biológicas primitivas, as pulsões da vida (para Freud); qualquer forma de energia psíquica (para Jung).
Taciturno: calado, mudo, silencioso, tristonho;
Prosa: bate-papo, conversa, diálogo.


O que será que será?

Publicado por JC sob em 00:04

2691050 "Bom, em primeiro lugar gostaria de agradecer ao João por disponibilizar o seu blog para que eu poste meus devaneios pra lá de absortos e deixar claro, de uma vez por todas, que apesar de ser apenas uma personagem, eu, o Tolo, e o João, o dono do blog, temos pensamentos díspares, anseios diferentes e vemos as coisas através de miragens ligeiramente distintas. Porém, não nego que concordamos em alguns aspectos, até porque, há de se haver algo de comum entre criador e criatura. Feita a mesura ao João e aclarada nossa disparidade, dou seguimento aos meus enleios, tão abstratos como aquele que vos escreve...

Cheguei a pensar que fosse coisa de momento. Que não mais voltaria a escrever. Talvez seja, quiçá, mas sinto uma necessidade mórbida em fazê-lo novamente.

Quem sabe um dia eu não ria disso tudo? Do quão tolo ou do quão genial (por que não?) eu fui. Também pouco importa qual fim terá meus escritos ou se de alguma maneira eles virão a ter alguma serventia. O que de fato influi é que, inexplicavelmente, sinto-me ligeiramente mais motivado a continuar vivendo ao escrevê-los. Sim, personagem também tem vida, às vezes mais de uma por sinal!

Tenho passado horas pensando no que farei no dia seguinte, planejando meticulosamente o que falarei, para quem falarei, como agirei e as conseqüências que minhas ações possam acarretar. Passo tanto tempo arquitetando o próximo passo que por vezes demoro mais tempo delineando-os do que os fazendo. De fato, a espontaneidade é algo que muito me carece. Tenho inveja de quem faz o que quer na hora que bem entende e pouco se importa com as conseqüências de suas ações. Queria ser assim. O que me conforta, minimamente que seja, é saber que existem muitos fulanos aí, no tal 'mundo real', que passam pelo mesmo infortúnio.

Não, não adianta. Não consigo tratar os sentimentos alheios como se nada significasse para mim. Tenho medo de decepcionar o outro, de criar falsas expectativas, de despertar em alguém algo que não estarei apto a responder a altura. Já passei por isso uma vez e não gostaria que tal fato se reincidisse. Sem mais eufemismos, tenho medo do amor. O que foi? Personagens também amam, e como amam...

Soa paradoxal até, mas é a pura verdade. Não falo daquele amor mitológico que só as personagens dos mais belos contos de fadas são capazes de sentir (eu não faço parte nem de um conto, quanto mais de fadas). Falo do gostar demais. Do pensar a todo instante. Do querer sempre estar por perto. Aquele sentimento que alonga as horas quando estamos longe de quem amamos e encurta os minutos quando o ser amado está ao nosso alcance. Eu costumo chamar de amor, mas se você, caro leitor, tem outra definição mais amoldada, sinta-se à vontade para usá-la e desusá-la. Sou apenas fragmentos de idéias.

Se é amor, se é paixão, um apetecer em demasia ou um anseio passageiro, não vem ao caso. O que de fato o torna relevante é a capacidade de me fazer agir tão tolamente e falar coisas igualmente parvas de 151138forma impensável em tempos remotos. Talvez seja essa a razão de meu pseudônimo.

Não quero prosar com um psicanalista, mas sim com gente como a gente. Na falta desse alguém, só me resta pensar...
E pensar...
E pensar...
E pensar...

Até a noite cair e tentar ser feliz ao menos em meus sonhos. Embora até isso me pareça cada vez mais difícil. Personagens também têm pesadelos..."

Devaneios: fantasias, sonhos, idealismos;
Absortos: abstratos
Díspares: diferentes, dessemelhantes;
Anseios: desejos, ambições, aspirações;
Aclarada: esclarecida, explicada;
Disparidade: desigualdades, distinções, diferenças;
Enleios: pensamentos, abstrações, devaneios;
Quiçá: talvez, quem sabe;
Mórbida: doentia;
Influi: importa;
Eufemismos: rodeios, circunlóquios;
Paradoxal: contrastante;
Apetecer: desejar, cobiçar, querer;
Amoldada: apropriada


Amor de primavera

Publicado por JC sob em 19:19

Bom, essa aqui é “do fundo do baú”. Foi uma música que fiz há quase dois anos atrás, depois de uma daquelas viagens que a gente conhece uma pessoa especial, mas que por conta da efemeridade do momento, temos inevitavelmente que dizer “adeus”.

A “música” não foi terminada e, a fim de conservar a magnitude do momento, preferi não findá-la agora. Até porque, pra mim, música e poesia é coisa de momento. Depois que a emoção se esvai não há porque continuar a escrever sobre algo que você não sente mais. Sem mais delongas, segue a música:


Não tente adivinhar
O que estou sentindo
Apenas feche os olhos
E me veja lá sorrindo

Não tente compreender
O incompreensível
Apenas feche os olhos
E sinta...

Sinta o vento bater
Sinta o tempo passar
E quando menos perceber
Nossa hora há de chegar

Todos os problemas
Todas as angústias
É tudo passageiro
Acredite,
Tudo passageiro...

Não Amor, não digas “adeus”
Um dia eu sei que vou voltar
Mas terás que correr o risco
De ter seu coração partido

Não ligue para os detalhes
Contemple a felicidade
No final é o que importa
Mesmo à mercê da brevidade

Se não der certo vamos sonhar
Sonhar como poderia ter sido
Sonhar não é tão ruim assim
Ruim é não ter o que sonhar

Sonhe daí que daqui sonho eu
Quando nossos sonhos se cruzarem
Como metáforas sem sentido
Vamos ver as ondas do mar
A noite toda
O dia todo
A vida toda
Até o sol rubro apagar
E o mar cansado enfim secar

Mas não me faças gostar de ti
Se tiveres medo de se arrepender
Eu sei que em mim vai doer
Mas seja o que tiver de ser


Adeus

Publicado por JC sob em 13:50

Apeteci que fosse diferente.
Meu mundo parecia ser perfeito,
quem ama não consegue ver defeito,
tão parvo meu gostar inda doente.

Promessas cá ficaram adormente.
Ao amor seu, Amor, jurara-me direito,
porém como o disparo de morteiro,

um adeus tu disseste de repente

Do muito gostar não me arrependo,
contudo, do sofrer, há quem namore?

Ficando assim vou, aqui padecendo.

Deslembrar-me de ti quiçá demore.
Quando de mim fugir, efêmero alento,
não mais existirá quem por ti sofre.

Apeteci: desejei, almejei, esperei;
Parvo: tolo, idiota, estúpido, bronco;
Adormente: acalentar, entorpecer, hipnotizar;
Morteiro: boca de fogo larga, de cano curto, para lançar projéteis com trajetória curva, com grande ângulo, para a destruição de obstáculos;
Namore: goste, cative, adore;
Quiçá: quem sabe, talvez;
Efêmero: passageiro, temporário, provisório, transitório;
Alento: entusiasmo, alimento, sustento.


Eco

Publicado por JC sob em 13:32

escrever

Pena que esperança não mais tenho
Tenho saudades das manhãs de sol
Sol que se fora e não promete voltar
Voltar no tempo e fazer diferente
Diferente como se não sei onde errei?
Errei em pensar que seria tão fácil?
Fácil narrar em vândalos versos
Versos que não me darão o que canto
Canto mas nem mesmo os males espanto
Espanto inutilmente um medo eterno
Eterno gostar que está se acabando

Pena...


Amor, Sexo, Bel-prazer

Publicado por JC sob em 22:19

Aquele não era um beijo como outro qualquer. Apesar de já tê-la beijado das mais diversas formas, aquele era diferente. Era mais doce, mais molhado, mais excitante. Eu era até capaz de sentir o gosto de sua virgindade mesmo sem saber que ela ainda era casta. Talvez isso se deva ao clímax. Não era todo dia que ficávamos a sós em meu quarto. Pensando bem, acho que aquela era a primeira vez.


Apesar de virgem, creio que ela sabia o que estava fazendo, e mesmo que não o soubesse, era tarde demais para voltarmos atrás. Não era tão inocente assim, tinha ciência do que estava por vir. Visto sua vontade de mostrar-se experiente, não fui afoito, deixei-a me conduzir como se fosse seu vassalo. E era.


Não tínhamos muito tempo. Apesar de estarmos a sós, minha mãe logo chegaria do trabalho, já era fim de tarde. Ela parecia saber disso. Enquanto ainda nos beijávamos ela foi erguendo minha camisa surrada, mais por instinto do que por saber o que estava fazendo. Na hora esbocei um leve sorriso ao perceber o seu pudor em me despir. Eu também não estava tão calmo assim. Era a nossa primeira vez e não queria decepcioná-la.  Tudo o que eu trajava era um short batido que tapava rusticamente as partes íntimas e uma camisa igualmente avelhantada. Camisa esta que acabara de ser jogada aos pés da cama em um gesto rápido de quem não tem muito tempo para mesuras.


Pude sentir os cabelos de minha nuca arrepiarem lentamente quando ela tocou o meu peito agora nu. Sua mão estava quente, apesar do álgido ar que adentrava pela janela do quarto que eu esquecera aberta minutos antes de nos beijarmos.  Seus dedos longos e esguios passavam lentamente pela penugem de meu tórax como que contando cada fio do escasso cabelo que o adornava.


Ela vestia uma blusa azul de laycra bem justa. Justa o suficiente para que qualquer observador mais atento notasse a ausência de um sutiã. Seu short jeans ia até um pouco abaixo da virilha, deixando boa parte de suas coxas à mostra. Não sei se era por conta de toda a excitação que havia tomado conta do meu eu, mas ela estava tentadoramente sexy. Mais do que o usual.


Minhas mãos, movidas por uma intuição natural, foram passeando por debaixo de sua blusa até sentirem o contorno de seus pequenos e macios seios. Sua pele estava encrespada. Não estava frio para tanto.  Meu dedo ia contornando uma de suas mamas, como se estivesse com receio de almejar seu incólume e pontudo bico.  Eu podia sentir o cheiro de seu aguilhoamento impregnando todo o quarto.  Em seguida tirei sua blusa lentamente, deslumbrando cada pedaço de seu corpo feérico que ficava agora a amostra, esquecendo-me, por ora, o pouco tempo que teríamos. Voltei a beijá-la. Minhas mãos agora caminhavam para o botão de seu short. Nossas respirações aos poucos iam acelerando. Apreensão? Talvez... Ainda de pé, meus dedos trêmulos abriam pausadamente o seu zíper, e sem despi-la por completo, a peguei no colo com uma desenvoltura que não sabia possuir e coloquei-a sobre a cama, a poucos metros de nossa posição inicial.


Longos beijos se seguiram, tão excitantes quanto o primeiro. Sua boca era pequena demais para eu me ater só a ela. Meus lábios passearam até encontrar o seu ouvido e sussurrar algo provocante. Não me lembro mais o que eu havia dito. Meus beijos úmidos percorriam seu corpo. Abaixo da orelha, passando pela nuca, depois no colo, até chegar a suas mamas. Conforme meus lábios iam descendo eu podia sentir sua respiração mais ofegante. Ela estava de olhos fechados. Tão pura, tão doce, tão minha. Meus dentes afundavam e seu seio macio caminhando até o seu centro, onde minha língua fazia a vistoria de cada centímetro quadrado daquela parte de seu corpo.


O sol já não mais se fazia presente no céu daquela sexta-feira. Estávamos mergulhados na penumbra de meu quarto como duas sombras que se fundem e não mais é possível saber onde uma termina e a outra começa. Estava tudo tão perfeito até que ouvimos um barulho no portão. Alguém havia chegado. Na hora não acreditamos, nos entreolhamos com um ar de assombro. Eu sabia de sua elevada timidez e que a última coisa que queria é que vissem-nos seminus em meu quarto. Tudo foi muito de repente, nada do que ocorrera havia sido planejado, pelo menos não por mim. Eu não havia trancado a porta do quarto, muito menos a fechado. Ela estava entreaberta, o que nos permitia ter certeza, pelo som de passadas curtas que a transpunha, da presença de um alguém no recinto. Era minha mãe, ela chamou por meu nome. Estávamos atônitos. Se eu a respondesse ela viria de encontro a mim, e se não o fizesse me procuraria em meu quarto. Saltei da cama e encostei a porta antes semi-aberta. Minha amada já tinha começado a se vestir. Enquanto eu também o fazia, percebi de soslaio sua apreensão. Era deveras mais embaraçoso para ela ser pega naquela circunstância do que eu.


Pouco antes de minha mãe chegar a meu quarto e perguntar-me por que eu não a respondera, estávamos sentados sobre a cama, devidamente vestidos, apesar de as roupas estarem terrivelmente amarrotadas, fingindo conversar sobre o filme que vimos pouco antes de todo o ocorrido. Infelizmente não foi daquela vez, mas um longo passo já havia sido dado.

PS. Os fatos aqui transcritos são integralmente fictícios.


Gênese?

Publicado por JC sob em 23:19

Tolo, após viver um dia igualmente tolo, senta-se na frente do computador e começa a tolear...

"Pronto, decidi! Decidi começar a escrever a cerca do que sinto. Talvez não adiante de nada, mas mal creio que não o fará. Já perdi as contas de quantos blogs fiz e não dei continuidade. A primeira instância este será apenas mais um deles, ou quiçá... Bom, sem prognósticos dessa vez.


Pensei que seria fácil confessar-se emocionalmente para um computador, afinal, ele é sempre tão imparcial. Não me dirá o que tenho ou o que não tenho que fazer. Não me criticará e nem me surpreenderá com comentários desanimadores. Sei exatamente como ele se portará, independentemente do que eu venha a lhe dizer. Ele sempre estará aqui, taciturno como de costume, sem proferir uma palavra se quer, olhando-me com cenho de sempre, manifestando-se apenas ao propagar o som de suas teclas sendo tocadas deselegantemente por meus dedos ainda amadores na arte de digitar. Talvez por isso seja tão difícil.


Sim, claro. Por que não prosar com um amigo? Alguém com que eu possa compartilhar minhas mais formidáveis desventuras. Alguém que sempre estará ao alcance de meu celular e no limite de meus créditos. Alguém que talvez só exista em minha imaginação...


Às vezes sinto vontade de literalmente extravasar. Sim, extravasar, gritar o mais alto que minha voz permitir, chorar até cair a última gota de minhas lágrimas, dançar até depois de a música acabar. Fazer coisas que sempre me imaginei fazendo, mas que, por ter uma sanidade a zelar, sempre tive que me conter. Não que seja um privilégio ser normal nesse mundo de retalhos morais.


Por ora acho que a loucura já me alcançou. Mas dizem que quando temos dúvidas quanto a nossa sanidade não estamos loucos, uma vez que os loucos têm a total convicção de que estão sãos. Aí eu me pergunto: não estaria eu usando essa afirmativa apenas para negar meu atestado de demência? Pelo sim, pelo não, sou apenas mais um louco fingindo ser normal. Ou seria o contrário?"



PS. Esqueci de ressaltar: essa prosa pertence ao Tolo, um heterônimo por mim criado.

 

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